A Revolta da Chibata e a luta do Almirante Negro

Durante a primeira república, uma revolta de caráter social abateu-se sobre o Rio de Janeiro, e atingiu um dos temas mais polêmicos do período; a superação da tradição escravista, principalmente nas classes mais aristocráticas da sociedade.

A Marinha é a mais aristocrática das forças armadas. Por exemplo,  as duas revoltas da armada (1891/1892), organizadas pela nata de seu oficialato, eram anti-republicanas, demonstrando o caráter conservador dessa parte da sociedade. No entanto, os baixos escalões, como os marinheiros, eram extremamente pobres e normalmente  negros e mulatos, que viviam as voltas com as lembranças de um passado escravista.

A Revolta da Chibata, ocorrida entre 22 e 27 de Novembro de 1910, foi o resultado da luta dos marinheiros para que os castigos físicos acabassem. Mas espera aí… castigos físicos mesmo após a abolição da escravidão? É isso mesmo, os castigos permaneceram como um exemplo do conservadorismo e dos absurdos cometidos pela marinha brasileira.

Pouco tempo antes, uma revolta ocorreu na Rússia, a motivação era muito parecida com a revolta brasileira, os marinheiros reivindicavam melhores condições de vida. O episódio ficou conhecido como “Encouraçado Potekim”, retratado em um filme homônimo, de 1925,  que vale a pena assistir. No link abaixo você encontra um canal que passa filmes online e lá vocês podem encontrar :

http://tvdajuventude.com/

Os marinheiros brasileiros tomaram os encouraçados Minas Gerais, São Paulo, Deodoro e o cruzador Bahia – os navios mais poderosos da esquadra -, que estavam estacionados na baía da Guanabara, e ameaçaram bombardear a cidade.O governo do marechal Hermes da Fonseca, tomado de surpresa, aceitou as reivindicações dos revoltosos: fim dos castigos físicos e anistia aos revoltosos. A alegria era geral, pela primeira vez eram  escutados, vistos pela elite.O grande líder do movimento, João Cândido Felisberto, mais conhecido como Almirante Negro,  era tomado por herói de uma classe, historicamente abandonada a sua própria sorte.

Depois que os marinheiros entregaram as embarcações, o governo prendeu quatro deles sob acusação de conspiração. Eclodiu então outra revolta, desta vez dos fuzileiros navais, na Ilha das Cobras. Eles foram bombardeados impiedosamente, mesmo depois de terem se rendido. Morreram 500 dos 600 amotinados. João Cândido, que não apoiara a segunda revolta, foi expulso da Marinha e, posteriormente, internado num asilo psiquiátrico. Só seria absolvido em 1912, mas ele jamais foi reintegrado à Força.Tuberculoso e na miséria, consegue, contudo, restabelecer-se física e psicologicamente. Perseguido constantemente, morre como vendedor no Entreposto de Peixes da cidade do Rio de Janeiro, sem patente, sem aposentadoria e até sem nome.

Tempos depois, na conturbada década de 70, a história de João Cândido foi relembrada nos versos da música de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na voz de Elis Regina. Eram os anos de chumbo da ditadura brasileira e a censura proibiu a utilização do nome Almirante Negro que foi substituído por Navegante Negro. Até parece que ninguém entendeu a mensagem da música ! Para aqueles que não conhecem essa bela canção observem a letra, uma obra prima. E não deixem de ver o vídeo da Elis quebrando o pau…

MESTRE SALA DOS MARES

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias

Glória à farofa
à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas salve
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo…

O presidente Lula , em homenagem ao Almirante Negro, batizou como “João Cândido” o primeiro navio fabricado num estaleiro nacional desde 1997. E acreditem se quiser, os revoltosos só foram anistiados em 2008, em homenagem e reconhecimento do movimento.

2 comentários sobre “A Revolta da Chibata e a luta do Almirante Negro

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