Comuna de Paris: o “assalto aos céus”

 

A comuna de Paris foi o primeiro governo operário da história. Esse acontecimento completou 140 anos e foi muito celebrado em todas as universidades brasileiras, sendo, portanto, candidato a aparecer nos vestibulares. Convido vocês a entender o que foi a Comuna de Paris e por que foi tão celebrado.

Em março de 1871 o povo parisiense tomou o poder da cidade e a governou, se considerarmos as circunstâncias, com relativo sucesso . A capitulação na guerra de resistência contra a Prússia e a tentativa de Thiers em desarmar a Guarda Nacional (que se identificava com os parisienses) certamente foram as causas imediatas, no entanto devemos olhar além desses acontecimentos, para buscar as causas estruturais. A verdade é que o povo de Paris identificava o governo de Versalhes com a Monarquia e a ordem que queriam derrubar desde 1789.

Em toda a Europa, com o desenvolvimento do capitalismo do século XIX, a riqueza concentrava-se mais. A exploração capitalista da terra expulsava os camponeses, que buscavam sua sobrevivência nas cidades trabalhando nas fábricas. A farta disponibilidade de mão de obra pressionava os salários para baixo. Durante as crises de meados do século a situação do trabalhador piora, diminuem os postos de trabalho, enquanto aumenta o número de trabalhadores. Contra essa situação de miséria, o povo lutava e organizava-se cada vez mais. Em 1789, 1830 e 1848 ocorrem movimentos populares por toda Europa. Em 1864 e 1868 acontecem as reuniões da Internacional (AIT) nelas os movimentos operários de todo o mundo discutiam as idéias socialistas e anarquistas.

Na França a situação do trabalhador também era ruim. O Império comprometeu o desenvolvimento econômico estabelecendo um tratado de redução de taxas alfandegárias com a Inglaterra. Além disso, travou uma série de guerras comprometendo as finanças do Estado Francês. Sua inábil política externa envolve o país na famosa Guerra franco-prussiana, em que Napoleão III é humilhado e preso na Batalha de Sedan. É proclamada a Terceira República, mas a tensão social continua grande, especialmente em Paris, onde a população está miserável. O cerco prussiano agravou a situação de toda população, porém os esforços de guerra não eram sentidos da mesma forma por todos.

Foi nesse contexto que a população parisiense tomou as ruas, levantou barricadas e proclamou o governo popular da comuna. Foram tomadas diversas medidas como a supressão do exército, passando a Guarda Nacional, composta pelo povo a fazer a defesa da cidade. Separa-se a Igreja do Estado, os padres param de receber pensão e são lançadas diretrizes para a educação laica e universal. Assim, eram suprimidas as instituições de dominação coercitiva e ideológica do Estado Burguês. Além disso, tomam a administração da cidade e instituem um modelo administrativo e jurídico baseado na eleição e deposição a qualquer momento dos funcionários públicos, que ganhavam salário igual ao dos demais trabalhadores.

Os comunards também tomam medidas para acabar com a opressão econômica e social. É declarada igualdade civil entre homens e mulheres, uma conquista da participação combativa e revolucionária das parisienses. As fábricas abandonadas pelos burgueses são apropriadas e entregues a administração coletiva dos próprios operários. O trabalho noturno é suprimido, são pagas pensões para viúvas e órfãos. As casas de Penhores são fechadas.

A comuna não era apenas um movimento parisiense, ela pretendia-se universal como a revolução de 1789. Desde o primeiro momento declarou-se aberta para a participação de todos os operários do mundo. A bandeira tricolor foi trocada pela bandeira vermelha da República Universal e a coluna de Vendôme, que simbolizava as conquistas napoleônicas, foi derrubada. Trabalhadores de todas as regiões da Europa vieram lutar ao lado dos parisienses na guerra civil que se tramava.

Quando o povo tomou Paris, Thiers e seus aliados fugiram para Versalhes e instauraram outro governo para a França. De lá reprimiram as demais cidades insurgentes como Lyon e Marselha. Além disso, Thiers negociou a paz com Bismarck, que concedeu a libertação do exército francês e o auxílio dos canhões prussianos. Em maio de 1871, ocorria em Paris uma guerra civil entre a Comuna e Versalhes, mas que ganha contornos da luta de classes internacional, contando com trabalhadores de toda a Europa ao lado de Paris contra a aliança de governos burgueses. A aliança burguesa, que contava com ampla superioridade militar, massacra os Comunards. Somaram-se mais de 20 mil mortos e outros 70 mil presos e exilados.

Ainda que a Comuna tenha durado apenas 72 dias, e sucumbido em batalha; ela conseguiu dissolver as instituições repressoras, substituindo-as por instituições democráticas, capazes de manter o funcionamento administrativo da cidade, tudo isso com uma guerra civil em curso e após a derrota para a Prússia. A Comuna lança diretrizes de governo e de gestão coletiva dos meios de produção; esses êxitos em condições tão adversas é que foram celebrados. Representam avanço e nova orientação do movimento operário. Comemora-se também a luta das mulheres por igualdade que teve muito destaque na Comuna de Paris, e que no Brasil começou a evoluir apenas recentemente. Aliás, a própria sociedade da Europa Ocidental ainda era atrasada, só haverá emancipação feminina legal na segunda metade do século XX, muito depois da sociedade socialista russa.

Enfim, a Comuna de Paris comprovou o que ainda parecia impossível, os operários comandarem eles mesmos um movimento, que fosse bem-sucedido em tomar o poder político. Além disso, mostrou os objetivos que as revoluções operárias deviam realizar: transformar as instituições e as relações de produção. Dessa maneira os trabalhadores poderiam comandar a transição para uma sociedade sem classes, ao invés de apenas ocupar o posto de comando do Estado.

2 comentários sobre “Comuna de Paris: o “assalto aos céus”

  1. Professora, bom dia
    Escalrecedor o texto. Li na apostila do Pré que a Comuna de Paris inspirou Lênin na Revolução Russa. Ai surgem duas perguntas: A Comuna de Paris experimentou um regime de governo plenamente comunista? Posso dizer que o comunismo instalado na URSS foi distorcido já que as massas deixaram de ser “exploradas” por uma classe burguesa e passaram ao julgo de uma classe “burocrática” que se formou no poder?

  2. Caro Huáscar,
    bom dia! Gostaria de agradecer sua participação, estamos aqui para produzir posts esclarecedores e para responder as dúvidas que porventura possam surgir.
    A Comuna de Paris é efêmera demais para concretizar todas as suas propostas, a maior parte delas estavam por ser realizadas ainda. O que podemos dizer, então, está embasado mais nas intenções daqueles homens e mulheres. E a julgar por esse lado; os desejos deles correspondiam à realização da igualdade plena (social, política e econômica). As idéias que influnciavam os revolucionários eram as debatidas nas reuniões da Internacional: anarquistas, proudhonistas, blanquistas, marxiana. Então, a Comuna é difícil de definir, os contemporâneos (Marx, Kropotkin etc) a interpretaram conforme suas respectivas ideologias.
    Em relação a segunda pergunta tenho dois apontamentos a fazer. Primeiramente a Rússia Czarista ainda apresentava maioria da população rural, submetida a relações de exploração pré-capitalistas, que mais se assemelhavam a servidão (que acabou na Rússia só em 1861). Outro apontamento seria a questão da “distorção”; parece que minha visão apaixonada sobre a Comuna de Paris acabou configurando-a como um caminho ideal e único a ser trilhado. Ainda que tenha seus méritos, a Comuna não realizou seus objetivos. Concordo que o socialismo soviético frustrou as expectativas depositadas sobre um governo dos trabalhadores. E que parte dessa insatisfação está ligada a manutenção de uma burocracia interessada em manter privilégios. Em breve produziremos um post tratando sobre a Revolução Russa, que espero poderem sanar sus questionamentos sobre esse importante episódio do século passado.
    Espero ter contribuído para seus estudos. Continue acompanhando o blog e nos mandando suas perguntas, esse retorno é muito importante para nós.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s