O período holandês no Brasil – Parte 1: As invasões holandesas

Olá galera! Que tal um pouco de Brasil colônia?! Hoje vamos nos debruçar sobre um dos temas mais interesses desse período da nossa História: as invasões holandesas na América Portuguesa. Escrevo no plural porque houve investidas dos neerlandeses na Bahia (1624-1625) e em Pernambuco, permanecendo nesta última por 24 anos (1630-1654).

Mas antes de mais nada, vamos ao contexto histórico. Desde 1580, Portugal se encontrava em uma grande crise política, pois estava sob o domínio do Rei de Espanha, Felipe II. É o chamado período da União Ibérica, no qual os lusitanos perderam a autonomia política tanto internamente, quanto seus domínios no ultramar. Nesse sentido, as possessões portuguesas na América eram administradas, em última instância, por Felipe II. Essa situação perdurou até 1640, quando houve a restauração portuguesa, ou seja, a independência da Espanha e a nomeação de um novo Rei português. 

União Ibérica em sua extensão máxima – 1598

A Espanha, por sua vez, não se interessava tanto pelas possessões portuguesas na América (nessa época, a única região viável economicamente nessas terras era o atual Nordeste do Brasil, com destaque para a capitania de Pernambuco). As minas de prata no Peru eram muito mais interessantes do que o açúcar nordestino. Vale lembrar que estamos no contexto do mercantilismo, doutrina econômica que pregava, dentre outras medidas, a ideia do metalismo/bulionismo (crença de que a riqueza provinha da quantidade de metais preciosos possuídos pelo Reino). Assim, o Nordeste colonial – assim como as outras colônias portuguesas – estava bastante vulnerável aos ataques provenientes do estrangeiro.

A Holanda, por sua vez, também fora dominada por Felipe II, mas proclamou a sua independência logo em 1581. Uma das medidas adotadas por Felipe II em represália foi a proibição da entrada de navios holandeses nos seus portos, o que afetava diretamente o comércio do açúcar do Brasil, onde os holandeses havia tempos lucrava com a compra, refinação e venda desse produto. Diante disso, os neerlandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) em 1621, uma empresa privada de mercadores que obtiveram do governo holandês o monopólio do comércio de escravos no Atlântico (Brasil-África). O maior objetivo da companhia, entretanto, era retomar o comércio do açúcar produzido na reigião nordeste do Brasil, agora sob a jurisdição da grande inimiga, a Espanha.

Cientes da vulnerabilidade da região, os administradores da WIC resolveram atacar Salvador, na capitania da Bahia. Chegaram com cerca de 1.700 homens, e conseguiram conquistar a capital. O governador-geral da Bahia, Diogo de Mendonça Furtado foi capturado, e os colonos, apavorados, refugiaram-se no interior. Porém, a ocupação não perdurou muito tempo, já que os holandeses foram derrotados por uma esquadra espanhola com mais de 12.000 homens. Em 1625, os holandeses se renderam, mas essa ainda não era a batalha final…

Restituição da Bahia, 1625

Em 1630, nova invasão holandesa, desta vez em Pernambuco, na época o maior produtor mundial de açúcar. Rapidamente conquistaram a cidade de Olinda, centro da capitania na época, e logo em seguida o governo holandês reforçou a expedição com mais de 6.000 homens, para assegurar a posse.

Os luso-brasileiros adotaram a mesma tática de guerra utilizada na Bahia, a guerra de resistência, liderados pelo então governador da capitania, Matias de Albuquerque. Mas agora os inimigos estavam mais preparados para a guerra. Estrategicamente, os neerlandeses iam atraindo alguns senhores de engenho e demais luso-brasileiros, com promessas de empréstimos e facilidades que não tinham com os portugueses.

Com a invasão da Paraíba, em 1635, os resistentes entraram em colapso e foram finalmente derrotados pelos holandeses. A região ficaria sob seu domínio até 1654, quando teve início o processo de expulsão dos holandeses e de restauração pernambucana à soberania do Rei português.

Conquista de Olinda, 1630

Uma figura muito conhecida dessa época é Domingos Fernandes Calabar, um mestiço que soube tirar vantagens da situação histórica da invasão, mudando de lado na guerra em favor dos holandeses. Documentos portugueses indicam que ele foi um informante central para os invasores, colaborando decisivamente para a derrota dos resistentes. Mas antes da derrota, Matias de Albuquerque e seus homens conseguiram armar uma cilada para capturá-lo. Sua “punição exemplar” consistiu em ser garroteado e esquartejado, e as partes do seu corpo foram expostas em praça pública, demonstrando assim o que aconteceria se alguém, como ele, resolvesse mudar de lado.

Por isso (ou melhor, devido ao fato de que os holandeses seriam derrotados em 1654 pelos lusitanos), Calabar é lembrado na História como o traidor dos portugueses e da religião católica (lembrar que os holandeses eram majoritariamente protestantes e, em segundo lugar, judeus e cristãos-novos). No nordeste, existem expressões como Calabar e calabarismo como sinônimos de traidor e de traição*.

Todavia, existe uma outra leitura de Calabar, que o coloca como o arauto da modernidade, pois defendeu o lado mais desenvolvido da questão. A reabilitação histórica de Calabar veio como consequência da revalorização do período holandês no Nordeste pela historiografia brasileira, que se deu a partir da segunda metade do século XIX. Em Maceió, pretendeu-se nos anos 1890 homenagear-lhe a memória, dando um nome a uma rua da cidade, com a justificativa de que ele “visara servir à pátria colonial, na persuasão de que o Brasil teria mais a lucrar passando de colônia portuguesa a colônia holandesa”**. 

Domingos Fernandes Calabar

Este é mais um exemplo de como a História e a historiografia representam uma mesma figura de maneiras diversas, como no caso de Tiradentes ou D. Pedro I. O grande Chico Buarque inclusive compôs uma peça teatral maravilhosa chamada “Calabar, o elogio da traição”. Uma boa pedida para a galera!

Bom pessoal, por hoje é só. Aguardem os próximos post que vão dar sequência ao tema do período holandês no Brasil, como o governo nassoviano e a restauração pernambucana. Bons estudos!!

* Ver MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana. São Paulo: Alameda. 3ª ed. p.205

** MELLO, op. cit. p.348

O Período Holandês no Brasil – Parte 2

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