A Copa do Mundo é nossa

Como as ditaduras do Brasil e Argentina se beneficiaram das copas nos anos 70.

Primeiramente queria deixar claro que a comparação entre 70 e 78 não tem nada a ver em relação às arbitragens e toda a marmelada que marcou a vitória dos donos da casa em 78. O Brasil de 70 foi impecavelmente campeão dentro das quatro linhas, tinha um time sensacional!!! Contava com ninguém menos que Edson Arantes do Nascimento, Rei do Futebol. Além disso, contava com Tostão, Gerson, Jairzinho, Rivelino, enfim era um TIMASSO! E, por isso, minha análise aproxima as duas conquistas apenas pelo regime político vivido pelos dois países e o uso dessas conquistas esportivas como propaganda dos respectivos regimes militares.

No ano de 1970, o Brasil vivia um bom momento econômico, o PIB crescia uma média de 10%, a inflação mantinha-se controlada, era o conhecido milagre econômico. Porém, enfrentávamos sérios problemas sociais e políticos, porque essa riqueza não era bem distribuída (eles ainda estavam naquela de aumentar o bolo pra depois dividir), e o governo aumentava a repressão como resposta a oposição política (lembram da marcha dos 100 mil e outros movimentos de 68, da guerrilha urbana, do sequestro do embaixador americano, do cônsul japonês, etc).

A seleção canarinho tinha, como eu já disse, um time muito forte, e foi campeã, vencendo todas as partidas. O sucesso do país na copa empolgava a população a cada jogo, que eram televisionados pra cá pela primeira vez. O presidente militar Médici, que era fã de verdade de futebol, não deu bobeira e se aproveitou muito bem da situação. As peças publicitárias misturavam as conquistas esportivas com o “desenvolvimento” alcançado pelo Milagre, tentando unir a população e dissuadir a atenção dos problemas sociais e da crescente repressão política. “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil,…” “Ninguém segura esse país”.

E quando os nossos heróis voltaram trazendo o ouro para o Brasil. O presidente enxerido encontrou-se com Carlos Alberto, e levantou a Jules Rimet com o capitão, como se a conquista fosse sua.

Em 78 a Argentina, em meio a inúmeras polêmicas, sediou e foi campeã da Copa do Mundo organizada pela FIFA. A primeira vitória do governo argentino foi conseguir sediar a copa, apesar dos inúmeros protestos de várias entidades favoráveis à realização do torneio em outro país que respeitasse os direitos humanos. Todo o campeonato foi meio estranho. As demais delegações se desgastaram num verdadeiro tour pelo país, enquanto a seleção anfitriã ficou basicamente sediada em Buenos Aires, concentrando-se para a final. Além disso, houve inúmeros erros grosseiros de arbitragem e a famosa marmelada no jogo entre Argentina e Peru, em que o goleiro peruano, mas de origem argentina, Ramon Quiroga, tomou um monte de frangos, e o jogo terminou em 6×0 para os hermanos. Dizem até mesmo que os generais argentinos enviaram presos políticos peruanos em retribuição por essa vitória. Então, a seleção anfitriã classificou-se para a final e foi campeã do torneio pela primeira vez em cima da Holanda, que já não contava com o craque Cruyff.

Logomarca oficial e sátira criticando a realização da copa na Argentina

A ditadura no nosso vizinho também se aproveitou do torneio e do fanatismo popular em torno da seleção nacional. O país sob o recente (re)comando dos militares, que tomaram o poder de novo em 1976,  não tinha um bom desempenho econômico e além disso passava por um período de intensa repressão. Essa ditadura argentina foi a mais sangrenta da América Latina. Daí o evento da FIFA, sua organização na Argentina e a vitória, ainda que contestável, da seleção anfitriã, serviram para unir a população e distrai-la desse desastroso período político e econômico, era a aplicação do velho truque do pão e circo. Coitados dos exilados que ficaram divididos: não sabiam se torciam a favor da seleção de seu país que amavam, ou se torciam contra a seleção que representava o regime opressor.

Enquanto isso, no Brasil o regime militar dava sinais de desgaste. O desempenho econômico não se manteve após a crise de 73. A insatisfação popular aumentou, e Geisel dava sinais de que o governo seria entregue aos civis. Numa transição “lenta, gradual e segura”, em que todos foram anistiados e tudo foi esquecido.

Bom pessoal, esse foi um post rapidinho sobre as ditaduras brasileira e argentina. Procurem estudar sobre o período militar na Argentina e no nosso país. Nesse ano questões envolvendo as duas ditaduras tem tido bastante destaque. Procurem observar as diferenças como os assuntos referentes ao período de exceção política são tratados nos dois países.

Um abraço e bom estudo!

Que tal resolver uma questão sobre o tema?

UFMG 2003QUESTÃO 07

Observe esta charge:

LEMOS, Renato. Uma história do Brasil através da caricatura. Rio de Janeiro:
Bom Texto/Letras & Expressões, 2001. p.102.

Nessa charge, faz-se referência à conquista do Tricampeonato Mundial de Futebol pela seleção brasileira.

1. ANALISE de que maneira a conquista da Taça Jules Rimet foi apropriada pelas forças políticas dominantes no País.

2. A charge diz respeito à conjuntura econômica que se estendeu de 1969 a 1973. ANALISE as principais características dessa conjuntura econômica.

Para ler mais sobre o assunto:

Anúncios

Um comentário sobre “A Copa do Mundo é nossa

  1. O presidente Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e o presidente Jorge Rafael Videla (Argentina) usaram as vitórias dos seus respectivos países nas Copas do Mundo de 1970 e 1978, como forma de distrair o povo, querendo com isso, que as pessoas ficassem passivas diante dos problemas vividos durante o regime ditatorial no Brasil e na Argentina.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s