Bento XVI e o poder nada divino da Igreja

O assunto mais falado dos últimos dias, sem sombra de dúvida, é a renúncia do papa Bento XVI. A mídia, mais uma vez, organizou um grande circo com informações soltas, excesso de achismos e outras trapalhadas que transformaram um momento tão importante em mais um episódio do Big Vaticano ( Pedro Bial deve ter morrido de inveja).

O fato é que alguns pontos sobre esse evento devem ser esclarecidos para que os mitos não sejam proliferados dentro da sociedade. O primeiro, e mais evidente, é que a renúncia do papa reflete a decadência profunda e progressiva que a Igreja vem vivendo. Mas isso só não vê quem não quer. A questão papal aparece quando observamos os erros estratégicos de um pontífice que promoveu uma onda conservadora na contramão dos avanços do mundo. A condenação do casamento homossexual, a condenação ao uso de preservativos,  a pregação da castidade, a condenação do aborto em qualquer caso, mesmo se tratando de crianças violentadas e mulheres que correm risco de vida,  criaram uma crise velada, mórbida ressaltando a discrepância entre as ações papais e o mundo atual.

Aos 85 anos, Joseph Ratzinger após abandonar o cargo papal passa a receber o título de Papa Emérito

Mas não era de se esperar menos, conhecido por suas características conservadores, Ratzinger sempre se portou como o guardião da ortodoxia, restaurador de tradições e caçador de teólogos progressistas como Leonardo Boff. Além do cargo de inquisidor-mor ocupado por ele durante o papado de João Paulo II, ainda que as bruxas não continuem sendo queimadas em praça pública esse cargo denota a postura do clérigo frente aos rumos da Igreja.

Uma fala marcante logo que assumiu dizia “rezai por mim, para que eu não fuja, por receio, diante dos lobos”, pois é, creio que essa frase faz mais sentido hoje do que em 2005. As razões precisas de sua renúncia provavelmente ficarão ocultas ao longo da história, mas será muito difícil não associar o fato à decadência e as crises internas que assolam o alto clero.

Aparentemente não houve pressão para que essa decisão fosse tomada, todos foram pegos de surpresa, uma vez que a agenda de compromissos estava sendo cumprida. O papa recentemente criou, inclusive, uma conta no Twitter em que escrevia em latim (acreditem se quiser um grande paradoxo entre a modernidade e conservadorismo). Alegando não ter mais condições físicas e mentais, visto a idade avançada, em uma reunião que trataria de três canonizações, ele chocou o clero e o mundo anunciando o abandono do cargo mais importante da Igreja.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu na história da Igreja, a singularidade reside na ausência de uma pressão visível e do momento vivido pela Igreja, que perde anualmente milhares de fiéis e enfrenta momentos de embate direto com o Estado Italiano, por questões econômicas e políticas. Agora é esperar as cenas do próximo capítulo. O dia 28 de Fevereiro de 2013  ficará marcado na história da Igreja como o sinalizador de novos tempos ou a aceitação da decadência latente.

Leonardo Boff comenta a renúncia de Bento XI

Anúncios

10 comentários sobre “Bento XVI e o poder nada divino da Igreja

  1. Lamento o desrespeito do Blog com as posições da Igreja, sou visitante frequente do mesmo, contudo acredito que as posições da Igreja Católica são baseadas na fé e quem não concorda deve ao menos respeitá-las.

    1. Caro Boby, venho esclarecer um ponto muito importante e que muitas vezes não fica claro. Quando falo da Igreja não estou em momento nenhum discutindo a questão da fé e dos princípios morais que ela prega. A questão discutida é a posição do clero frente o mundo de hoje e as várias posições que existem dentro da Igreja. Sinto que a f, muitas vezes, impede as pessoas de lerem com a razão , percebendo que a fé não precisa ser abalada por isso. Na verdade muito me espanta seu comentário, pois a critica realizada é em relação ao conservadorismo de algumas alas. Eu, por exemplo fui criada em berço católico, respeito muito a religião e acredito que é preciso sim realizar uma reforma progressista no seio do clero para que escândalos como a pedofilia entre membros clericais, a perseguição a teólogos passem a ser marcas passadas.
      Infelizmente a sensação que fica é que somente o título do texto tenha sido lido, pois o conteúdo, lido e relido antes de ser publicado, nada compromete os princípios da religião e expõe com muita cautela a delicada situação vivida no Vaticano. Muito diferente da maior parte dos veículos da mídia que não tiveram o menor respeito com as tradições e com o próprio papa.
      Agradeço a participação e deixo a dica: O respeito não esta na cegueira com o que há de ruim e sim no debate e na vontade de transformação.
      Abraço
      Bárbara

      1. Concordo prof, (se me permite rs) no que tange ao debate, mas tanto o título qto o texto levam a crer que a igreja NADA tem do divino, e isso não se baseia no âmbito da lógica, mas da fé, que por mais absurda que possa parecer move a vida de milhões.
        Abraço,
        obs: Saudade de suas aulas, exceto as de reforma e contra-reforma rsrsrs

    1. Caro Boby, de antemão venho agradecer a participação. O blog é um lugar democrático para podermos discutir as mais diversas opiniões a cerca dos assuntos mais polêmicos.
      Fico feliz em ter sido melhor compreendida, abrindo uma ressalva para sua colocação a cerca do título. Pois é, a sua colocação é precisa, mas gostaria de ressaltar que um texto jornalístico como fiz utiliza, muitas vezes, de títulos intrigantes para estimular a leitura. Por isso questionei a leitura na integra pois, infelizmente, é muito comum. Fico feliz de saber que não foi seu caso.
      Continue enriquecendo o blog com discussões como essa.
      Um bom fim de semana!!!
      Abraço

  2. Obrigado pela participação de todos.
    O título do artigo, na minha opinião, está perfeitamente adequado ao texto, pois o principal tema tratado foi os conflitos políticos envolvendo a Igreja. E isso não é de fato “nada divino”, mas antes questões humanas no seu sentido pleno. Por outro lado, também acho que a expressão usada no mesmo título tem um espaço de significação maior, e é perfeitamente compreensível que a um católico – no caso do Boby – possa interpretá-la como uma afronta aos princípios da fé. Mas a leitura do texto mostra inequivocamente o contrário.

    A questão fundamental tratado no post é a luta entre o pensamento conservador e o progressista, com a visível derrota (mesmo que não seja total) do primeiro. É um tema bastante interessante para se pensar não só em relação ao papel da Igreja – de enorme influência hoje em dia – mas também a toda a vida social.

  3. Oi Bárbara,tudo bem? aqui é a Bárbara (kkk) faço cirsinho no Pre do Barreiro Gostaria de saber seu ponto de vista sobre o ”nosso” novo papa. Beijos adoro você e suas aulas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s